Mais do que Literatura
O impacto cultural de Jin Yong vai muito além da literatura. Seus romances moldaram a maneira como os chineses pensam sobre lealdade, justiça, amor e identidade nacional. Seus personagens se tornaram pontos de referência na conversa cotidiana. Suas frases fazem parte da língua. Sua estrutura moral — a ética do xia (侠) de ajudar os fracos e manter a palavra — tornou-se um padrão cultural.
Nenhum outro escritor chinês moderno atingiu esse nível de penetração cultural. Lu Xun é mais respeitado pelos críticos literários. Mo Yan ganhou o Prêmio Nobel. Mas Jin Yong é o escritor que as pessoas comuns na China realmente leem, citam e utilizam como uma estrutura para entender o mundo.
O Sistema de Referência Compartilhado
Os romances de Jin Yong funcionam como um sistema de referência compartilhado — um vocabulário cultural comum que os chineses utilizam para comunicar ideias complexas rapidamente.
Chamar alguém de "Guo Jing" (郭靖) significa que a pessoa é honesta, mas não inteligente. Chamar alguém de "Huang Rong" (黄蓉) significa que é brilhante, mas manipulativa. Chamar alguém de "Wei Xiaobao" (韦小宝) significa que é esperto de rua e sem princípios. Essas referências são compreendidas instantaneamente por qualquer chinês que cresceu lendo Jin Yong ou assistindo às suas adaptações.
Esse vocabulário compartilhado cria coesão social. Quando duas pessoas estranhas descobrem que ambas amam Jin Yong, imediatamente têm uma língua comum — um conjunto de personagens, situações e dilemas morais que podem discutir como se fossem amigos em comum.
A Estrutura Moral
Os romances de Jin Yong fornecem uma estrutura moral que preenche uma lacuna na cultura chinesa moderna. A ética confucionista tradicional foi interrompida pelas revoluções do século XX. A ideologia comunista forneceu uma alternativa, mas perdeu credibilidade após a Revolução Cultural. O individualismo ocidental influenciou a China urbana, mas não ressoa totalmente com os valores culturais chineses.
A ética do xia de Jin Yong — ajudar os fracos, manter a palavra, colocar a nação acima de si mesmo — oferece uma estrutura moral que é distintamente chinesa, emocionalmente envolvente e acessível por meio do entretenimento em vez da educação. Não é uma filosofia formal. É um conjunto de histórias que incorporam valores — e histórias são mais eficazes que a filosofia na formação de comportamentos.
A Conexão da Diáspora
Para os chineses no exterior, os romances de Jin Yong servem a uma função adicional: eles são uma conexão com a identidade chinesa. Um chinês vivendo em Toronto, Sydney ou Londres pode não falar mandarim fluentemente, pode não celebrar todas as festividades chinesas e pode não acompanhar a política chinesa. Mas se ele leu Jin Yong, compartilha um sistema de referência cultural com 1,4 bilhão de pessoas.
Os romances de Jin Yong são um dos poucos produtos culturais que unem os chineses através de fronteiras geográficas, políticas e geracionais. Chineses da China continental, taiwaneses, habitantes de Hong Kong e chineses no exterior todos leem os mesmos romances e amam os mesmos personagens.
A Questão do Legado
Jin Yong faleceu em 2018. Seus romances são completos...